Fotógrafos do Século XX: Francesca Woodman – Trabalho para História da Fotografia no ArCo

“Creio que a minha maior surpresa foi poder ler os seus diários e cadernos e ver os seus trabalhos em vídeo. Neles descobri que a sua obra é muito mais vital do que o que parece e que esta tem muito a ver com a celebração da vida e não tanto com a ausência como costuma ser indicado. Creio, como disse o seu irmão no documentário, que a arte era uma religião para ela e para a sua família. E quem sabe se não é daqui que surgiu o problema.” (C. Scott Willis)

Texto

Francesca Woodman nasceu numa família de artistas (pais George e Betty Woodman) em 1958 nos USA.

Desde cedo se interessou por fotografia tendo começado a fotografar aos 13 anos em médio formato a preto e branco. Aos 17 anos, ingressou na Rhode Island School of Design (RISD) onde, desde que iniciou os seus estudos se notava que já sabia exactamente o que queria da Arte. Depois de algum tempo de estudo, do qual uma parte em Roma, Itália, Francesca mudou-se para Nova Iorque para perseguir o seu futuro como fotógrafa.

Francesca era uma pessoa ambiciosa, desejosa de reconhecimento, que possuía um ego de artista numa psique frágil, combinação que eventualmente poderá ter contribuído para o final que escolheu para si. Francesca Woodman vivia convencida de que tinha um destino. Para muitos esse destino está patente nas suas fotografias, para outros está oculto nas mesmas. Francesca entregou-se de tal modo ao seu trabalho, que o não ter o reconhecimento rápido ao mesmo, se tornou o não reconhecimento a ela mesma. A palavra mais utilizada para a descrever é que era uma pessoa “intensa”, e essa entrega dela própria ao trabalho, assim como essa intensidade, notam-se nas suas imagens que se mantêm vivas e cheias de significado.

Uma semana antes do seu pai participar na exposição mais importante da sua carreira no Museu Guggenheim, em 1981, Francesca suicidou-se. Tinha na altura da sua morte 22 anos. Apesar de o seu primeiro livro (“Disordered Interior Geometrie”) ter sido publicado cerca de uma semana antes de sua morte, Francesca manteve-se praticamente desconhecida em vida e só começou a ser conhecida em 1986, cinco anos depois, graças a uma exposição da sua obra no Wellesley College. A partir de então a sua obra ganhou uma dimensão de reconhecimento enorme, tendo sido muito apreciada pela riqueza profunda que lhe está patente.

Francesca utilizou elementos do simbolismo, do Barroco, do Surrealismo e do Futurismo. As suas fotos transportam-nos para um ambiente fantasmagórico, profundamente emocional e sensual e até mesmo, ocasionalmente, perturbado e violento. Mas o seu trabalho era genial no sentido de ser pouco comum. Não é possível ficar-lhe indiferente pela beleza, pela estranheza e pela audácia. Fascinante é também que Francesca não tentava capturar o momento suspenso no tempo mas antes preferia mostrar a fluidez do arrastar do tempo. A sua obra frequentemente contém elementos de performance – fotografando-se a ela em movimento, muitas vezes reduzida a um arrasto.

Podemos dizer que o corpo do seu trabalho é o auto-retrato encenado em que a nudez é um elemento essencial por ser colocado como fazendo parte dos objectos e de todo o ambiente que o envolve. A natureza (folhas, ramos, pássaros…) e as casas (paredes, muros, janelas…) tinham um papel fundamental nas suas composições. Com estes elementos criava ambientes sinistros e com uma grande densidade simbólica, onde encenava histórias cheias de melancolia e tristeza onde o seu corpo era o centro de tudo. Interessava-lhe relacionar-se com o espaço e fazer jogos complexos de escondidas, fazendo-se desaparecer numa superfície plana – tornando-se a parede por detrás de papéis, escondendo partes de si com vidros que apresentavam algo mais não pertencente à imagem, fundindo-se com o chão – constantemente contrastando a fragilidade e vulnerabilidade do seu próprio corpo com a força dos objectos à sua volta. Era fascinada por limites e fronteiras, levando o seu trabalho a explorar os limites difíceis entre a adolescência e a idade adulta, entre a existência e o desaparecimento último – a morte.

Em 2010 C. Scott Willis realizou o documentário ”The Woodmans” acerca da família de Francesca. Retrata o ambiente familiar e a vida da fotógrafa. ”Creio que a minha maior surpresa foi poder ler os seus diários e cadernos e ver os seus trabalhos em vídeo. Neles descobri que a sua obra é muito mais vital do que o que parece e que esta tem muito a ver com a celebração da vida e não tanto com a ausência como costuma ser indicado. Creio, como disse o seu irmão no documentário, que a arte era uma religião para ela e para a sua família. E quem sabe se não é daqui que surgiu o problema.” disse o realizador do documentário.

A arte não matou Francesca mas sim dava-lhe vida, no entanto foi quando uma crise criativa afectou a sua capacidade de trabalho que a artista entrou no desequilíbrio profundo que acabou com a sua vida.

Francesca Woodman, apesar da sua curta vida, deixou-nos cerca de 800 maravilhosas fotos, das quais deixo aqui algumas para vosso deleite.

Imagens

Nenhuma das imagens deste Post são da origem do Imaginei-me dentro de ti.
Todos os créditos das imagens são atribuídos a Francesca Woodman de acordo com as indicações conhecidas.

  

Francesca Woodman é um(a) d@s fotógraf@s na Secção Paixões do Imaginei-me dentro de ti. Para uma galeria com mais imagens: http://imagineimedentrodeti.com/paixoes/francesca-woodman/.

Bibliografia

 

Advertisements